Meu menino lindo: Cartas de amor de um frade sodomita, Lisboa (1690)

ARTIGOS
4. Meu menino lindo: Cartas de amor de um frade sodomita, Lisboa (1690)(1)

“Meu coraçãozinho, minha vida, minha alma e meu tudo: mais amor tenho hoje a ti do que a um Deus que me deitou neste mundo, e mais do que a uma mãe que me criou, (pois) vivendo eu fora dela, há seis anos, mais aceitaria estar contigo um instante, do que com ela muitos séculos.”(Frei Francisco da Ilha da Madeira)

Introdução
Cartas de amor são jóias raras nos arquivos. Documentos preciosos que revelam sentimentos íntimos do mais recôndito do coração e particularidades da vida privada, no mais das vezes ausentes mesmo nos raros diários e autobiografias de personagens de antanho.(2)
Se as antigas cartas de amor de romeus e julietas em língua portuguesa são raridades, ainda mais extraordinárias são as missivas de amor de um homem para outro homem(3) , considerando que notadamente a partir do Século XIV,(4) a homossexualidade, então chamada de “abominável e nefando pecado de sodomia”, passou a ser considerada crime tão grave quanto matar o Rei ou trair a pátria.(5) Frente a tal risco de vida, para escapar da prisão, torturas e da pena de morte na fogueira, nada mais lógico que os praticantes de crime tão hediondo – o amor unissexual – evitassem deixar traços escritos que poderiam ser usados como declaração formal de culpa assumida.(6)
Em minhas prolongadas garimpagens na Torre do Tombo, o mais importante arquivo da história luso-brasileira, coletando documentos sobre a atuação do Tribunal da Santa Inquisição na repressão aos praticantes do “amor que não ousava dizer o nome”, tive a felicidade de encontrar duas pérolas preciosas, dignas de ornarem a coroa de Ganimedes(7) : a primeira foi uma coleção de cinco cartas, datadas de 1664, escritas por um sacristão do Algarve para seu amante, um violeiro infiel, documento já divulgado em revista local e internacional.(8) A segunda pérola, que revelo aqui em primeira mão, ficou perdida por três séculos no pó dos arquivos: trata-se de uma coleção de seis cartas, datadas de 1690, escritas por um religioso do famoso Mosteiro dos Jerônimos, nos arredores de Lisboa.(9)
Algumas informações sobre o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição e sobre o autor e destinatário destas cartas e o contexto em que tais documentos foram produzidos, auxiliarão o leitor a melhor entender a importância e as implicações etno-históricas deste achado.
As primeiras referências históricas à homossexualidade no reino de Portugal aparecem nos famosos Cancioneiros, a partir do século XIII, onde diversos homens do povo e da nobreza são referidos como amantes da cópula per annum, distinguindo-se desde já dois papéis sexuais: o ativo fodincu e o passivo fodidincu. Insultar um confrade com epíteto de fodidincu chegou a ser penalizado com o castigo de cinco açoites, comprovando-se o quão aviltante era considerada a passividade sexual.
Os séculos XIII e XIV são considerados pela moderna historiografia como a época em que a intolerância à homossexualidade e às minorias étnicas, sobretudo judeus e mouros, tornou-se mais violenta na Europa Ocidental, refletindo-se fielmente nas leis e instituições civis e eclesiásticas. O mundo ibérico não escapou a esta onda de intolerância, tanto que exatamente no mesmo ano em que é afastado do trono o primeiro monarca lusitano infamado de sodomita, D. Pedro I (1439 – 1446), promulgam-se em Portugal as Ordenações Afonsinas, o documento mais contundente contra a homossexualidade, e no qual vários outros diplomas vão se inspirar, onde se define a sodomia como o pior de todos os pecados cometidos pelo gênero humano: “Sobre todos os pecados, bem parece ser o mais torpe, sujo e desonesto o pecado de Sodomia, e não é achado um outro tão aborrecido ante a Deus e o mundo, pois por ele não somente é feita ofensa ao Criador da natureza, que é Deus, mais ainda se pode dizer, que toda a natureza criada, assim celestial como humana, é grandemente ofendida: somente falando os homens neste pecado, sem outro ato algum, tão grande é o seu aborrecimento que o ar não o pode sofrer, mas naturalmente fica corrompido e perde sua natural virtude. Por este pecado lançou Deus o dilúvio sobre a terra e por este pecado soverteu as cidades de Sodoma e Gomorra; por este pecado foi destruída a Ordem dos Templários por toda a Cristandade em um dia. Portanto mandamos que todo homem que tal pecado fizer, por qualquer guisa que ser possa, seja queimado e feito pelo fogo em pó, por tal que já nunca de seu e corpo e sepultura possa ser ouvida memória.” (10)
Com as Ordenações Manuelinas (1521) e Filipinas (1606), confirma-se a pena da fogueira aos somítigos, que passam a ser equiparados aos criminosos de lesa-majestade e de traição nacional, ficando por conseguinte seus descendentes inábeis e estigmatizados por três gerações sucessivas, gratificando-se regiamente a quem delatasse os praticantes do abominável pecado nefando.
Instalada em Portugal a Inquisição em 1536, foi apenas em 1553 que D. João III concedeu uma Provisão autorizando os Inquisidores a procederem contra o pecado nefando.(11) Enquanto na vizinha Espanha desde 1524-1530 Clemente VII autorizara as Inquisições de Aragão, Saragoça, Valência e Barcelona a perseguirem o nefando , é somente em 1562 que Pio IV promulga semelhante Breve Apostólico para as inquisições portuguesas, ratificando-o em 1574 Gregório XIII.(12)
Nos dois primeiros Regimentos da Inquisição Portuguesa, de 1552 e 1570, não há referência à sodomia, somente aparecendo tal crime no Regimento de D. Pedro de Castilho (1613), sendo este inquisidor considerado na época, pelos próprios fanchonos, como prelado “que não perdoava aos sodomitas.”(13) Diferentemente da Espanha , estipulava-se com clareza que o Santo Ofício tinha alçada apenas contra o pecado de sodomia perfeita, isto é, a penetração com ejaculação dentro do vaso traseiro, ficando fora do seu conhecimento os pecados de bestialismo e molice, incluindo-se neste termo todos os demais atos de sensualidade não dirigidos à cópula anal: masturbação individual ou a dois, felação, anilíngua, etc. (14) Fica claro, portanto, que para o casuísmo teológico-moral da época, sodomia e homoerotismo eram condutas e “vícios” com graus distintos de gravidade: embora ambos fossem pecados mortais contra o sexto mandamento da Lei de Deus, apenas a sodomia perfeita constituía crime da alçada inquisitorial.
No regimento de D. Fernando de Castro (1640), o Papa Paulo V (1605-1621), ratifica o poder das Inquisições Portuguesas de perseguir os sodomitas, condenando à fogueira sobretudo aos mais devassos no crime, os que davam suas casas para cometer este delito ou perseverassem por muitos anos na perdição. O castigo devia ser público e exemplar: Auto de Fé, açoites até o derramamento de sangue, confisco de bens, degredo ou fogueira, dependendo da gravidade e contumácia do fanchono. O lesbianismo, chamado de sodomia foeminarum, a partir de 1646 é descriminalizado em Portugal, embora continuem oficialmente os padres do Santo Ofício a perseguir a sodomia imperfeita, i.é., a cópula anal heterossexual, muito embora sejam raras as condenações por este crime.(15) No último Regimento (1774), o Cardeal da Cunha repete mutatis mutandis a casuística dos anteriores, transferindo-se, contudo, ao arbítrio do rei decidir ou não pela pena de morte em casos de “razão especial e política”, certamente quando o réu de sodomia fosse membro influente das altas esferas do reino.
Nenhuma instituição na história da humanidade produziu tantos documentos sobre a homossexualidade quanto a Inquisição Portuguesa. Embora a sodomia fosse apenas um dos “crimes” perseguidos pelo Santo Ofício, o volume documental e a riqueza dessas fontes só tem equiparação ao que se produziu contemporaneamente nos institutos de sexologia.(16)
De 1587 a 1794 localizamos nos Repertórios do Nefando um total de 4.419 pessoas denunciadas ou que se confessaram de algum envolvimento com a sodomia. Destas, tão somente 394 chegaram efetivamente a ser presas e processadas, representando portanto 8,9% do total dos registros. De acordo com o casuísmo dos Regimentos, se o sodomita, mesmo que muito devasso, tomasse a iniciativa de confessar-se, sem que tivesse anteriormente sido denunciado por algum cúmplice, deveria ser tratado com misericórdia, sendo quando muito degredado, nunca entregue à justiça secular para a pena ordinária de fogueira. Mesmo os reincidentes eram tratados com menor rigor do que os denunciados.
Eis o panorama de repressão à sodomia em Portugal, tendo como referencial o número de pessoas efetivamente presas e processadas.(17)

Prisão de sodomitas pela Inquisição Portuguesa(1547-1768)

Tribunal Século XVI Século XVII Século XVIII Total
Lisboa
67
230
18
315 (80%)
Coimbra
2
27
1
30 (7,6%)
Évora
24
21
4
49 (12,4%)
Total
93
278
23
394

O século XVII representa o auge da intolerância e perseguição à homossexualidade em Portugal: somente entre 1620-1644 foram presos 94 sodomitas (23,8%), o equivalente ao total do século anterior. A explicação para a variação destes piques tem a ver com a maior visibilidade e talvez descuido dos fanchonos, que no século XVII se tornam mais ousados, provocando um endurecimento da repressão eclesiástica, temerosa de que o reino e seus domínios do ultramar se convertessem em novas Sodomas.(18) Tanto que é sobretudo a partir do Regimento de D. Pedro de Castilho (1613) que a legislação inquisitorial oficializou todo o minucioso casuísmo de como proceder contra o “mau pecado”. Certamente, a influência da Inquisição espanhola fez-se sentir mais forte durante estas décadas em que Portugal esteve sujeito à coroa de Castela, pois reconhecidamente, o Santo Ofício espanhol foi muito mais homofóbico, na severidade do julgamento, na crueldade dos castigos e no número superior das prisões, do que seu vizinho lusitano.
É neste contexto, nos finais do século XVII, que são escritas estas seis cartas de amor “nefando”, documentos que só se conservaram até hoje devido à um gesto de vil traição: o destinatário delas, outro monge do mesmo convento, também chamado de Real Mosteiro de Nossa Senhora de Belém(19), conhecendo que o Santo Ofício da Inquisição costumava perdoar aos sodomitas que tomassem a iniciativa de se auto-delatarem, optou pela infame decisão de entregar tais cartas aos Reverendos Inquisidores, no momento mesmo em que confessou suas culpas.(20)
Eis o fio desta meada que envolve amor, paixão, erotismo, ciúmes, medo e traição.
Aos 13 de setembro de 1690, Frei Mathias de Mattos, religioso professo da Ordem de São Jerônimo(21) , 40 anos, sacerdote e pregador, morador no Convento de Belém, à beira da desembocadura do Tejo, pediu audiência à Mesa do Santo Ofício, desejando descarregar sua consciência. Confessou que no princípio da Quaresma daquele ano, por ocasião do Capítulo(22) realizado em seu mosteiro, travou conhecimento com um jovem corista(23) morador no mesmo convento, Frei Francisco da Ilha da Madeira. Disse que, desejando o jovem contar com seu apoio a fim de ser enviado a estudar no Colégio(24) , o dito corista lhe escreveu algumas cartas “cheias de palavras amorosas”, cartas que agora, ao se delatar, entregava à autoridade inquisitorial.
Disse mais: que também ele respondera algumas cartas (que a seu pedido – infelizmente para os historiadores! – foram anteriormente rasgadas pelo corista). E que algum tempo depois, o jovem começou a vir à sua cela de noite, quando ele já estava deitado, “cometendo um com o outro muitos e repetidos atos de molície consumados(25) , despidos, ora na cama, ora fora dela, na sua cela e na de Frei Francisco, e por lugares ocultos do convento, por um ano. E com esta confiança e comunicação, facilitada pelas cartas de amores, indo à cela do declarante como costumava, e achando-se na cama, se deitou despido com ele, que também estava despido, e depois de várias palavras amorosas que entre si tiveram e outros afagos, incentivos da luxúria, se pôs o dito corista em cima dele, declarante, e o penetrou, e sentindo ele que o penetrara, desviando seu corpo para que dentro não derramasse semente, como com efeito não derramou, porque o dito corista tirou de dentro depois de alguma dilação e de fazer o que pudera se fora com uma mulher. E isto porque assim, ele declarante, como o dito corista, entendiam que a fealdade e pena deste pecado só consistia em derramar dentro a dita semente e não por fora, como o dito corista fez naquela ocasião. E na mesma ocasião foi ele declarante agente(26), e para isto se deitou também o dito corista de bruços na cama e ele declarante se pôs em cima, metendo o seu membro viril no vaso traseiro do dito corista, o penetrou e depois de alguma fricção, o tirou de dentro (para) não derramar a dita semente, por entender que a pena deste pecado só consistia na consumação dentro do vaso traseiro, e por se livrar dela, cometeram nesta forma…”(27)
Continua Frei Mathias de Mattos sua confissão, dizendo terem repetido diversas vezes os mesmos encontros, praticando apenas molície só pela frente, como vinham fazendo até maio próximo passado, mas “como tinham grande medo, e para se livrar da tentação que podiam ter, em passar a diante neste pecado, não cometeu outro naquela forma, somente se contentavam ambos com cometerem molices, pondo-se em cima um do outro por diante.”
Concluiu sua confissão-denúncia declarando ter procurado a Mesa Inquisitorial antes do corista, não com a má intenção de o prejudicar, mas para evitar a infâmia de ser acusado primeiro.
As cartas de Frei Francisco da Ilha da Madeira para Frei Mathias de Mattos falam por si mesmo: são declarações de amor, lamuriosos reclamos pela paixão mal correspondida, preocupação e medo de que este amor proibido se tornasse do conhecimento público, relatos sobre trivialidades do dia a dia dentro do mosteiro, além de comentários críticos sobre outros confrades. A tônica epistolar é basicamente amatória, devaneios barrocos de um homem gay(28) apaixonado por outro.
Sobre o autor desta cartas, Frei Francisco, só sabemos que devia ser natural da Ilha da Madeira, como diz seu sobrenome religioso, que era jovem, gay, corista, que estava distante de sua mãe há 6 anos e tinha um tio na igreja de São Roque, no Bairro Alto de Lisboa.
Através da análise de sua caligrafia, estilo e conteúdo epistolar, podemos concluir que o jovem corista Frei Francisco da Ilha da Madeira tinha boa escolaridade, estando certamente apto a candidatar-se ao estudantado, – embora às vezes, sobretudo devido à dificuldade da transcrição paleográfica, alguns trechos de suas cartas ofereçam difícil compreensão. As condições adversas em que estas linhas foram escritas – com pouca luz, às escondidas da vigilância dos superiores, com receio de sua divulgação – indulgenciam seus deslizes estilísticos.
Chamo a atenção do leitor para o uso que o missivista faz de ditados populares e algumas referências inspiradas seja nas Sagradas Escrituras, seja em autores sacros, às vezes lembrando o imaginário da poética e prosa dos místicos carmelitanos São João da Cruz e Santa Teresa D’Ávila, quiçá mesmo dos escritos do Doctor Illuminatus, o Beato Lúlio em seu Livro do Amigo e do Amado.(29) O uso constante de diminutivos associados a sentimentos de ternura e paixão eram muito comuns no português barroco e ainda freqüentes no linguajar passional contemporâneo luso-brasileiro.
Quanto ao destinatário destas cartas de amor, tivemos a grata satisfação de encontrar a seguinte notícia bio-bibliográfica sobre Frei Mathias de Mattos na obra Biblioteca Lusitana, de Diogo Barbosa Machado:
“Frei Mathias de Mattos era natural de Lisboa, onde foi educado virtuosamente por seus pais, Mathias de Mattos e Natália de Jesus. Sendo dos primeiros congregados do Oratório de São Felipe de Neri, pelo apostólico espírito do Venerável Padre Bartolomeu de Quental, passou para a religião de São Jerônimo em cujo instituto professou no Real Convento de Nossa Senhora de Belém aos 25 de dezembro de 1679, onde foi Prior do Mosteiro da Pena e Visitador Geral da Congregação. Pregou com aplausos geral até que faleceu a 26 de agosto de 1716. De muitos sermões que recitou na Capela Real, e outras partes, publicou: Sermão da pretensão das cadeiras dos Filhos de Zebedeu, na Terceira Quarta Feira da Quaresma na Capela Real, Lisboa, Impresso por João Galrão, 1686.”(30)
Se em 1690 Frei Mathias de Mattos declarou perante a Mesa Inquisitorial ter 40 anos de idade, deve portanto ter nascido em 1650, tendo 66 anos ao falecer, em 1716. Através desta pequenina biografia patenteia-se que os repetidos atos homoeróticos deste monge jeronimita – por terem permanecido secretos, conhecidos apenas pelo Santo Ofício, não prejudicaram o desempenho de funções destacadas dentro de sua Ordem, ficando porém a dúvida se após sua confissão, em 1690, teria ou não o frade fanchono(31) abandonado definitivamente a prática homoerótica. Com base em nossa experiência nesta matéria e ponderando-se a desenvoltura libidinosa deste pregador fanchono, somos levados a desacreditar em sua regeneração: provavelmente Frei Mathias deve sim, ter mantido, a partir de sua confissão no Tribunal da Fé, muito maior discrição e segredo em seus amores clandestinos. O indiscutível, neste episódio, é que se não fossem estes registros indiscretos da Inquisição, jamais saberíamos que este distinguido eclesiástico “virtuosamente educado por seus pais”, discípulo emérito da Congregação do Oratório, Visitador Geral da Ordem dos Jerônimos, manteve clandestinamente, uma vida paralela e heterodoxa, em flagrante desobediência a seu voto solene de castidade e em periclitante desafio aos interditos da Santa Inquisição. Como Frei Mathias de Mattos, a documentação do Santo Ofício comprova que muitos foram os varões e varoas ilustres de Portugal, sobretudo frades e religiosos, que secretamente foram praticantes do amor que não ousava dizer o nome.

CARTAS DE FREI FRANCISCO DA ILHA DA MADEIRA
A FREI MATHIAS DE MATTOS

Carta Primeira(32)

” Meu feitiçozinho, meu cãozinho:
Esta tarde te vi passar com o irmão de Frei Bento. Bem te vi chegar para a porta da horta onde estávamos, e por uma greta te vi e teu lindo rostinho, e a tua boquinha que lhe desejei dar um beijinho de língua. E de tal sorte me vi estonteado que estive para ir após de ti pela porta a fora. De tal sorte me vi embebido, que cheguei a dar passos para o fazer, quando me lembrei que estavam ali os coristas.
Oh! que mágoa que sentiu meu coraçãozinho! Já não posso explicar, por que causas grandes melhor se explicam (em) bem senti-las, suposto que oculto com o silêncio o que é digno de tanto aplauso.(33) Te venho a dizer que excede minha dor todos os modos de sentir: não é possível que haja mais penar! Um só bem tem tantos males, que é tornar-me de sentir outros (males). Não posso sentir outra pena, que conhecendo tu o meu amor, lhe não correspondas com suas letras(34) , para que tenha mais ocasiões de padecer. E esta pena só me fica em coração , por que pena tão grande não pode explicar alguma pena, nem pode haver papel que seja capaz de resistir incêndios e verter mares.
Que tinta pode haver que diminua minhas mágoas? Que desmaie a pena, recuse o papel, pena e a tinta. Melhor arbítrio é (a) recompensa no coração, (como tenho dito) pena tão grande, por não descobrir uma pequena queixa tão grande dor, por que então me dirás: a pena pela explicação e não pelo tormento que não seja eu digno de lograr tuas letras. Por favores tão soberanos, eu sou o primeiro que os publique, mas não faço eu deles a maior estimação. É uma falsidade que desmente tantas infâmias da alma, e adverte que nunca um amante há de viver satisfeito do que faz, se não obrigar cuidadoso o servir atento.
Ora, meus amorinhos (35), escreve-me sempre, e se puder, todos os dias, ainda que seja uma regra(36), por que com ela aliviarei as penas que tenho dito.
Ora, adeus, adeus, meus olhos. Dá-me minhas saudades lá a meu coraçãozinho. Tomara que viera o dia para te ver essa boquinha e os ter teus olhinhos que são uns feitiçozinhos.
Não sei que me tem passado, porque não posso parar na cela, (ansioso) por te ver, por adorar, finalmente por te meter todo, todo, todo dentro do meu coraçãozinho, na minha alma, nas minhas entranhas.
Ai meu menino, que há de ser de mim se me falta a tua vista! Que há de ser de mim se logro a tua vista por bocadinhos. Tomara de estar sempre, sempre (te) vendo! Mas, ai que não tenho liberdade para isso, por isso morro, por isso acabo sem tu que me acudas. Ora acode, acode cãozinho, a teu, a teu coraçãozinho, ora acode, sim, sim, sim, ai meu coraçãozinho, dá-me os teus bracinhos por que aí quero morrer.” (folha 232)

Carta Segunda
“Meu coração:
Esta tua ausência me tem dado muita pena. E se não fora as esperanças de saber onde estás, não sei se fora vivo ou morto. O mais certo é ser morto do que vivo. De ti já sei que devias levar uma vida excelente, sem te lembrar deste prisioneiro. E o certo é que agora me hás de render muitas finezas, as quais nem hei de dar crédito, pois quem se anime de estar fora de mim três ou quatro meses (e se estiveras mais se esta carta te não estorvara), será dificultoso o dar-lhe crédito às suas finezas.(37)
Ora meu menino lindo, lindo, que para mim julgo muito que lá padecerias na minha ausência. De mim, te quero contar parte de minhas penas, que foram tantas que me obrigaram a escrever a meu tio à Igreja de São Roque(38) que te buscasse e como eu não sabia onde moravas, só lhe mandei dizer que era no Bairro Alto e lhe pedi muito que se te encontrasse, que te desse minhas lembranças.
Muitas cartas fiz para te mandar, porém não me quis fiar de ninguém. Ao “Congro”(39) perguntei por muitas vezes se sabia onde moravas, e me disse que não. E como me via por tantas partes desamparado, só me faltava o pasmar.
Agora, meus olhos, que já te tenho, agora meu coração se aliviara com tua vista. E olha, meu menino, que te falo com todas as veras, que com esta tua ausência, acabei de conhecer o quanto estou preso. E agora, daqui por diante, não quero senão conte-lo em muitos amorinhos. E vigia que não saiba ninguém, nem dês ocasião para isso. Tu bom juízo (tens) nessa cabeça e muita velhacaria(40) nesse corpinho: não tenho o que te recomendar nesta particular.
Agora no refeitório(41) por acaso disse um rapaz da adega: é chegado o Padre Frei Fulano(42) . E não por acaso me veio alegria tão grande, que a não posso explicar, por que esta (alegria) depois que te fostes, só me assistia enquanto ouvia falar em ti, (por) que do mais, tudo em mim era como um pena contínua.
Hoje indo repicar à torre dos sinos, vi vir um frade de São Domingos ao longe e imaginei que eras tu(43) : estive à espera com muita alegria, até que tudo veio a se converter em penas e considerações: porventura estará doente ele que tarda tanto? Porventura não virá agora para casa? E outras considerações que me faziam (doer) o coração.
Oh! quantas vezes quando ia dizer as lições no coro(44) olhava para o banco e faltava-me o que desejava ver. Oh! quantas vezes olhava para o teu coro, sem ver lá o meu menino! Agora, meu coração, minha alma, e minha vida, vejo o meu coração aliviado, os olhos com a vista, a alma com alegria, com gostos. Agora já tem os meus braços a quem abraçar, já os olhos tem para onde olhar, agora se acha o meu coração com alívios, porque tem com quem desabafar. Já agora tem a quem beijar.
Aceite tudo isto, meu coração, ora aceita que me queres matar, que hoje mais que nunca te peço, aceite estes abraços, aceita que estou preparado para dar mil vidas se tantas tivera só por te fazer um gosto, e se tantas vidas dera para te fazer um gosto, o que não farás tu para me dares um alívio!
Ora, acaba já me dares os teus bracinhos, não seja tirano, não me queiras matar de todo, que bem vingado te fez. Não me esquece ainda a tirania com que (te) apartastes de mim, ainda não! Pois até te não dar dois açoites(45) na minha cela, me não hei de esquecer, o quanto eu rezarei a Deus(46)que fico esperando por resposta, ou por letras tuas. ” (folha 233)

Carta Terceira
“Meu coraçãozinho, minha vida, minha alma e meu tudo:
Timbre(47) é de honrados com eu, por confissão tua, predicado seu da tua amizade, ostentarem-se agradecidos e se é que não passa mais avante por esta, devo atrevidamente numerar-me bem nascido e são mestiços(48) que concorrem a me obrigar a fazer-te estas e outras muitas regras para te dar a conhecer que vivo eu obrigado às tuas memórias, que não presumi serem ludíbrios que à minha pessoa lanças, lanças acharás em mim que se não se assemelharem aos teus primores, não andem de me vencer nas leis da amizade.
Nenhuma intenção tinha de te fazer participante das minhas letras, por que facilmente se perde um escrito e justamente o crédito, e com ele e em ti é que tenho posto todo o meu cuidado. Por isso, queria ver se podia passar sem que fizesse para que em algum tempo não pusesse algum desgosto, mas fio na tua pessoa e não faças porque te não hei de meus amorinhos dar ocasiões de me ofender.
Ora sim, desde agora te dou o meu coração, alma e vida e todas as potências da alma(49) . E olha que te não hei de ser algum tempo contrário e hás de experimentar em mim o que até agora não temos experimentado, a quem entregastes o teu coração. Manda-me dizer o que te faz este maganete(50) e grandíssimo desavergonhado: já era necessário que lhe déssemos com um pau que bem merece.
Hoje me apurou de tal sorte a paciência ao servir da mesa, que se não assentara (um frade), lhe houvera de cortar as orelhas. E já na mesa parece que não quis Frei Bernardo uma ração de carneiro, por (estar) má, e pedia outra, a qual tinha dado da cozinha, para que lha levou sem pedir-me ele que não fizera, porque ele não houvera de fazer, ou lhe não quis fazer o gosto, porque levei a ração ao clérigo, e enfadou-se muito e chegou a Ministra(51) muito enfadado, dizendo: aqui não se faz a vontade senão aos vilões ruins. Virei-me eu para ele e lhe disse diante dos cozinheiros e os mais criados que na cozinha estavam: oh! irmão, vós não podeis chamar vilão ruim a ninguém, porque vós ofendeis a vós mesmos. E voltei a levar a ração de carne ao procurador.
Não te posso encarecer o que aquele diabo e toda a mesa rosnou, e o gosto que teve de me ver dar ao vigário aquela penitência. Enfim, meu coração, havemos de ter paciência porque não é tempo de falarmos.
Hoje quando fui limpar o coro, cuidei que se achasse lá, para poder desabafar contigo, e justamente ver-te, porque só com isso desabafo.
Não sei o que me tem dado, porque somente ver-te as caras me causa alívio no coração. Ora, meu cãozinho, aqui me tens: mata-me! Estourarei de padecer o que advinho hei de padecer contigo. Bem sei que emprego bem o meu amor em ti, porque conheço que por ti não hei de cobrar estes amorinhos.
Podes estar seguro, que se esse amor não acabar com a morte, além dela passará o meu, e assim estou vencido tanto de vontade quanto de amor, e podes estar seguro que nesta hora, me serve o coração por boca, porque escrevo o que me dita o coração.
Ai Jesus, valha-me Deus, não sei em que me meto! Faz-me Deus matar, e se é o teu gosto este, mata-me, aqui me tens, mata-me, meu menino. Quem fora tão de ferro que estivera derramando sobre teu coração as lágrimas que os meus olhos sobre este lançam! Mas ai que morro, não por te ver todos os instantes e morro porque então morrendo alcançarei a vida. Ora, mete-te, mete-te neste coraçãozinho , esteja metido, ora mete-te mais, mais, mais, mais por dentro, assim!
Ai Jesus, que consolo sinto agora! Saber o que dizes já, que me amas, amas muito, muito, muito, muito me amas e pagas-me na mesma moeda, porque te amo muito, muito, muito, oh! cãozinho que já me começas a matar. Eu morro, filho! Acode-me, morro de saudades tuas!
Não sabes que alegria me causou em ver-te agora no Capítulo(52) quando vinha com este magano. Amava eu estar ali toda a vida adorando-te. Mas, ai que não pode ser, que disso morro!
Tu filho, busca-me por muitas vezes em parte donde te veja, porque não sabes a glória que disso tenho. Ora, meu coraçãozinho, dá já os teus braços, aperta, aperta mais, mais, ainda é pouco, ainda mais, ai que gosto tão grande, quem me dera agora estar mamando nos teus peitozinhos! Oh que doces peitinhos! Mete-me dentro num que é o esquerdo, onde está o meu coração, porque quero ver o que te diz lá. Ora, meu menino, adeus!
Ai que me não atrevo a deixar-te! Agora (te) vi escarrar e me roçastes na parede: que gosto que logrei! Agora não, não te posso explicar, que delícias, que gostinhos tive agora! Ai! Já como me sabe! Ah! feitiço que me trazes morto: melhor fora nunca te conhecer, do que agora adorar-te sem te ver. Que penas tão grandes! Mas uns teus carinhos, as tuas pancadinhas, mais apagam, mais aliviam, muito, muito meus amorinhos.
Vem me dizer que teu coração é um incêndio, é um fogo muito aceso e ele me tem abrasado, e gosto muito! Adeus, adeus, porque sinto escarrar o Barbos. Agora deram a badalada, por isso não dou mais largo, mas que farei? Se acabar de escrever-te me faz acabar a vida! Eu acabo, acabo: acode-me cão, cachorrinho que me não acodes! Ora sim, acodes-me, ora acode-me, sim, sim, se não, morro, morro, eu morro! Ora vem já acudir-me, vem, ora vem, meu menino, por que morro, já estou morrendo por te ver: acabas já de vir, ora sejas muito bem vindo. Como estás? Como te vai lá com o meu coraçãozinho? Mui bem! É muito gostosinho, é um feitiçozinho, ora estimo muito, muito, como está lá? E o meu como está? O que te diz está muito quietinho, é muito mansinho(53). Diz-me também que tu o destes a Eugênio e que nunca… (dilacerado) e que só folgo de os ter comigo, porque faço muito caso dele, porque lhe quero muito.
O vigário me fez apagar a candeia: estou nos escuros por isto não te escrevo mais. Adeus.” (folha 234)

Carta Quarta
“Meu Coração:
Não sei que me deu na cabeça em meter-me contigo, pois que veio estalar o coração sem lhe poder dar remédio. O único remédio só é desabafar com a pena, e se nisso achas perigo, eu te prometo de rasgar todos (teus escritos) em acabando de os ler, para que assim te veja mais descansadinho e menos sobressaltado. Porque o meu gosto todo é dar-te todo o alívio que puder. E se te causar pena escrever-me, não o faças, deixa-me morrer. E tem por certo que (em) tuas mãos tens a minha vida. Assim, se me queres dar vida, não me faltes com as tuas letrinhas. (Se) me faltares com isso, é quereres me dar a morte.
Olha, meus olhos, que fico estalando por ti e por tuas letras. E quando não me queiras conceder nada disto, dá-me sequer os seus bracinhos, porque neles quero morrer. Que sirvam de lenha de meu amor! Para que neles se renovem meus afetos.
Ora, meus amorinhos, dá-me esses bracinhos dá-me esse coraçãozinho. E não repares em te eu não mandar nada de presente, porque já há muito que te tenho dado tudo: coração, alma, vida, para te amar. Sim, meu coraçãozinho, sim minha alminha, sim minha vidazinha. Tudo tens lá: faze agora de mim o que quiseres. Olha que se me fizeres mal, que fazes ao teu coraçãozinho, porque em mim está, que o meu lá te assiste(54). Manda-me dizer, que te diz lá: o teu diz-me que me quer, me quer, quer muito, muito, que morres por mim, que eu fui um tolo em o ter magoado tanto. Que o meu lá te dera muito, muito, que disso me pena.
Agora, coraçãozinho, morrer de amores e acabar a vida, já que tu és muito capaz para isso, e eu muito incapaz para ser de ti amado com todos os veros como tenho experimentado em ti. Eu sempre ingrato aos teus favores, está sempre (pronto) em corresponder com finezas as minhas ingratidões.
Bem sei eu que se tu puderas estar comigo, todo o dia, o haverias de fazer, mas tem paciência, porque eu choro lágrimas de sangue, porque isso não pode ser, que se pudera, que melhor regalo que estar nos teus bracinhos, deitado no seu colinho, dando-te dois beijinhos.
Ah! Que doce coisa seria isso, que melhor regalo, oh que doçura! Dá-me um, dá-me, dá-me meus amorinhos! Quanto não hei de chorar! Dá-me as tuas maminhas que quero mamar um pouco! Dá cá, dá cá, mais, ainda mais! Ai, como sabe! Ai, ai, ai, ai, ai, como sabe bem! Era a Deus que estivera nestes gostinhos, se me não detivera o medo.
Adeus! Adeus, mas ai que não posso despedir-me. Adeus, adeus, adeus, meus olhos, meu coraçãozinho, meus amorinhos.” (folha 235)

Carta Quinta
“Meu coraçãozinho:
Vão as tuas prendas(55) que comigo tinha, que como te via tão desconfiado de mim e justamente conheço o pouco que de mim fias, quero te ver fora desse cuidado e dar-te ocasiões de teu gosto. E por onde conheço que se fias pouco de mim, é que conhecendo tu o muito que te quero, e que tomava que não houvera instante no dia que se não gastasse senão na tua vista, e também que em todos os escritos que te escrevi foram sempre com confianças de amor.
Nunca de ti experimentei palavra de amor, senão de cortesia. Porém, de quem amo muito, não no comum, sim no particular, não se me dizes que ainda não estás satisfeito do meu amor: não sei o que faça. Bem sabes conhecer a gente com que vives, que é gente besta.
Bem sabes que todo o homem honrado não quer dar ocasiões a que se suspeite dele cousa contra o seu crédito. Bem sabes que se te quiser falar todas as vezes que quiser, o hei de fazer, porém com risco. E ainda que tenhas aqui boa opinião, não importa, que tanto dá água na pedra até que amolece. E assim tantas vezes me verão falar contigo até que venham a suspeitar mal.
Declarar-te o que te amo me não atrevo, porque são tantas as coisas que em ti acho para seres de mim bem amado, que me dificultam o dar a razão. Em ti acho seres o melhor latino que tem esta casa; acho seres um dos melhores pregadores que ela possui; creio seres homem de brios mui altos; seres amigo de seus amigos; seres homem de palavra; seres homem que se pode fiar de ti os maiores segredos, por não teres nada de traidor. Acho-o seres homem amorável. Vejo mais que por ti se não andem cobrar os nossos amorinhos. Isto é tudo o que me falta que dizer: só tu o fez!(56)
Em nenhum desta casa se olha, porque todos são uns maganos, sem palavra nem cortesia. Em mim não hás de achar, senão o ser-te verdadeiro e leal amante, pois ainda quando eu não quisesse ser pela vontade, me obriga o ter-te declarado o meu coração, cousa que a ninguém desta fiz, nem farei. O meu natural é ser amigo dos homens como tu és, e por isso, nunca se cobrará a nossa amizade, porque eu não sei cortar pelo natural. Isto te digo com todos os cinco sentidos e com todo o coração. Faze agora o que quiseres que eu já sou teu e não meu.
O homem das chaves vindo m’a dar, lhe disse que sua Reverência fosse pedir ao Padre Roixo que concedendo-a ele, eu a aceitaria com grande vontade. Ele assim o fez e me veio dar. Se não fez gosto de que eu a tenha, dá-la-hei ao Padre Roixo. Fica-te embora, minha alma, minha vida, meus amorinhos. Tem-me na tua graça, que é o que quero. Não quero mais nada no mundo do que os teus braços.” (folha 236)

Carta Sexta
“Deus me acuda! Não sei em que me tenho metido! Tu me hás de matar, e eu a ti(57). Porem já não tem remédio: isto há de se acabar com a morte e queira Deus que não passe além dela, pois mais amor te tenho hoje a ti do que a um Deus que me deitou neste mundo, e mais do que a uma mãe que me criou, que vivendo eu fora dela, há seis anos, mais aceitaria estar contigo um instante do que com ela muitos séculos.
Bem me lembra que me pedistes te não escrevesse, mas não pode ser, porque o teu amor me faz abrasar o coração, e com esta pena quero ver se se poderão apagar tantas que me afligem de te não poder estar vendo todas as horas, todos os instantes.
Três vezes vim a este dormitório esta tarde só a ver se te podia ver: sucedeu-me o contrário, porque da primeira vez vi as barbosas (sic) do vigário; da segunda a carranca do Polaca; da terceira, o meu coraçãozinho, os meus amorinhos, a minha vida, a minha alma, e no tempo em que já vinha enfadado de te não achar, então te vi vir subindo para o meu coração – mas que pouco que dura um gosto! Que logo me apartei de ti, me vi ansiado por ti, estive esperando na casa dos foles(58) muito tempo, que como me destes com a mão que me viesse embora, imaginei que me mandavas ir par ao Coro para me falares, porém, entendi muito mal os teus acenos.
Esta tarde passei no claustro(59) com os outro coristas, se por uma parte com alegria, porque foi ter conosco um doido que nos fez rir muito, por outra, com muita pena, porque te não via.
Mandei pelo castelhano buscar à cela um melão, e uma melancia e algumas framboesas e pêras, de que o vilão vai comer mui bem. E ao cozinheiro mandei assar uma empada para cearmos, do que o vilão ruim não enjeitou e de quando em quando fazia: está boa, o que me fez fazer duas considerações: a primeira, de que morre por falar comigo, e pela segunda, de que se tem feito desavergonhado. Destas duas considerações não tirei a certeza, porque me parece que pela primeira morre, e pela segunda, vive.
Esta tarde bem te senti passar e é certo que quem sente não dorme, é verdade que alguma coisa dormi, porém foi depois disso muito tempo, e quase nada dormi, porque me veio o Roixo à cela dizer que agora os coristas não dormiam depois de jantar(60) , e que tudo era levar boa vida, que eu não tratava mais que de engordar, ao que lhe respondi que os bons discípulos sempre tomavam os documentos de seus mestres, que se me achava ser mau discípulo, era porque me via reger pelas suas ações, que sua reverência assistia a todas as horas no coro como eu, que sua reverência tinha as mesmas horas de sono que eu tinha, e por (isso) não foram os moços dormirem mais que os velhos, e que sua reverência dormia a sesta tendo muita (sic) mais idade do que eu, de que se espantava de me ver dormir, negou-me de que não dormia nada à sesta, ao que eu lhe respondi, que visto sua reverência não dormir depois de jantar, escoraria de passar quando fosse para as vésperas pela sua porta – não respondeu nada.
Eis aqui o que passei hoje e adeus, meus olhos, que não posso mais, porque já deram 10 horas e acabou-se-me o azeite(61) , que se não fora isso, depois das matinas(62) te escrevera mais. Adeus, adeus meu menino, adeus, ora adeus meus amorinhos, adeus minha vida, adeus minha alma, adeus, adeus, muitas saudades ao Padre Frei Mathias da Trindade(63), que me tenha no seu coraçãozinho.
Ai que não posso me apartar, ai que será de mim, sem ti morrerei, ai, ai que morro, porque te não estou agora vendo. Acode-me minha vida, acode-me que morro, morro porque te não vejo, porque te não vejo meter nos meus bracinhos, meu coraçãozinho, ai, ai que me esquece dizer-te: por ti hei de acabar a vida brevemente, esta noite fôra, senão tivera as esperanças de te ver nas matinas: não te quero dar este papel senão na tua mão, por isso tomo cabo na cela, porque nestas coisinhas quero ser muito acautelado e seguro, adeus, adeus, adeus.” (folha 237)

À guisa de conclusão:
As cartas deste monge jeronimita para seu companheiro de claustro ressaltam alguns aspectos cruciais para a reconstituição da etno-história da homossexualidade no mundo luso-brasileiro. Tais epístolas confirmam a riqueza quantitativa e qualitativa das fontes documentais produzidas pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa, material que está longe de ter sido completamente depurado e catalogado, e que aguarda novos pesquisadores que se disponham a esta excitante tarefa.
Primeiro, a presença marcante do amor unissexual dentro das ordens religiosas(64) : nossas pesquisas anteriores comprovaram que 1/3 das prisões e execuções de sodomitas efetuadas pela Inquisição Portuguesa incidiam sobre membros da Igreja – coristas, noviços, sacerdotes, frades, etc. É com absoluto merecimento que também no Reino de Portugal a homossexualidade era antigamente chamada de “vício dos clérigos”.(65)
Um segundo remate leva-nos ao terreno do homoerotismo: tais cartas confirmam a versatilidade da performance sexual dos amantes do mesmo sexo, que longe de macaquearem a rígida separação dos papeis libidinosos praticada pelos heterossexuais – ao contrário, demonstram tais amantes o que a Antropologia chama de “reciprocidade equilibrada”, isto é, a falta de rígida definição dos papéis sexuais de passivo e ativo. A variedade e intensidade dos afagos, beijos e demais carícias trocadas entre Frei Francisco e Frei Mathias corroboram que o erotismo entre dois homens era tão carinhoso, meigo, às vezes intenso e pungente, como entre amantes de sexo diferente. Como tão acertadamente ensinou um escolado mestre do erotismo, Gregório de Mattos, que viveu à mesma época em que estas cartas foram escritas:
“O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas
uma batalha de veias
um rebuliço de ancas:
quem diz outra coisa, é besta.”(66)

Uma derradeira conclusão remete-nos à uma visão mais holística da própria homossexualidade: a forma apaixonada, carinhosa e total como estes amantes se entregaram um ao outro, comprova meridianamente o equívoco daqueles críticos que tentaram reduzir os sodomitas a meros praticantes de cópulas anais, sem outro sentimento que não fosse a exclusiva atração venérea. A paixão arrebatadora revelada nestas cartas corrobora que o amor entre dois homens soe ser tão forte e apaixonado como entre pessoas do sexo oposto – estando repleto de razão o poeta Fernando Pessoa quando escreveu:
“O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem nao é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.” (67)

Não foi encontrado nos Arquivos da Inquisição nada mais contra Frei Francisco da Ilha da Madeira e Frei Mathias de Mattos. O casuísmo inquisitorial, criminalizando apenas a sodomia perfeita, poupou estes dois frades gays de maiores castigos. Se voltaram a se relacionar ou se tiveram outros amores homoeróticos, inexiste documentação que esclareça.
Na minha opinião, o traidor Frei Mathias de Mattos deve estar até hoje penando no purgatório; quanto ao apaixonado Frei Francisco da Ilha da Madeira, com certeza, deve estar lá no céu, sorrindo e nos mandando seus beijinhos apaixonados…

NOTAS

1. Ente ensaio faz parte de uma pesquisa mais ampla sobre moralidade e sexualidade no mundo luso-brasileiro que conta com o apoio do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) a quem mais uma vez registro meu agradecimento. Sou igualmente devedor aos professores Ronaldo Vainfas, Cândido de Costa e Silva e Robert Howes por eruditas sugestões bibliográficas. Aroldo Assunção colaborou na transcrição documental.
2. Eis algumas coletâneas de cartas de amor: Lovric, Michelle. Passionate Love Letters : An Anthology of Desire, with facsimiles of real letters & quotations from lovers’ correspondence throughout the ages. New York: Shooting Star Press, 1996; Love Letters to Remember : An Intimate Collection of Romance and Passion. Tulsa, Okla., Penbrooke Press, 1996; Tamplin, Ronald. Famous Love Letters : Messages of Intimacy and Passion. Pleasantville, NY: Reader’s Digest Association, 1995. Na obra História da Vida Privada, de G.Duby e Ph. Aries (São Paulo, Companhia das Letras, 1995) consulte-se o interessante artigo de Jean Marie Goulemot, “As práticas literárias ou a publicidade do privado”, vol.3, p.371-405.
3. Rictor Norton: My Dear Boy : Gay Love Letters Through the Centuries, S.Francisco, Leyland Publ, 1998
4. Boswell, J. Christianity, Social Tolerance and Homosexuality. Gay People in Western Europe from the Beginning of the Christian Era to the Fourteenth Century. The University of Chicago Press, Chicago, 1980.
5. Aguiar, A.A. Evolução da pederastia e do lesbismo na Europa. Separata do Arquivo da Universidade de Lisboa, vol.XI, 1926
6. Mott, Luiz. “Justitita et Misericordia: A Inquisição Portuguesa e a repressão ao nefando pecado de sodomia”, in A.Novinsky et allii (orgs) Inquisição: Ensaios sobre Mentalidade, Heresias e Arte, São Paulo, EDUSP/Expressão e Cultura, 1992, p. 703-738
7. Na mitologia grega, Ganimedes era um belo jovem da Frígia que atraiu a atenção de Zeus, o qual travestindo-se em portentosa águia, arrebatou o efebo levando-o para o Olimpo para ser seu companheiro de cama. Desde o século XVI, especialmente na França, “ganimedes” passou a significar “homossexual passivo”. Cf. Saslow, J.M. Ganymede in Renaissance: Homosexuality in Art and Society. New Haven, Yale University Press, 1986.
8. Mott, Luiz. “Love’s labors lost: five letters from a Seventeenth-Century Portuguese sodomite” in K. Gerard & G.Herkma Eds. The Pursuit of Sodomy, New York, The Haworth Press, 1988, p.91-101; “Cinco cartas de Amor de um sodomita português do século XVII”, Resgate: Revista Interdisciplinar de Cultura do Centro de Memória da Unicamp, n.1, 1990, p.91-99; “Heart trouser fly”, in Rictor Norton: My Dear Boy : Gay Love Letters Through the Centuries, Leyland Publ, S.Francisco, 1998, p.68-70.
9. Os originais destas cartas encontram-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, Caderno do Nefando n.14, fol. 228-237, 13-9-1690.
10. Aguiar, A.A. – Evolução da pederastia e do lesbianismo na Europa. Saparata do Arquivo da Universidade de Lisboa, vol. XI, 1926, p. 519.
11. Bennassar, B. – L’ Inquisition espagnole. Paris, Hachette Marabout, l979, p. 335
12. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Index dos Repertórios do Nefado, (143-7-44).
13. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, Processo 1312
14. Flandrin, J.L. – Le sexe et L’Occident. Paris, Seuil, l98l, p. 340
15. Mott, L. – “Da fogueira ao fogo do inferno: a descriminalização do lesbianismo em Portugal, 1646.” Comunicação apresentada na International Conference on Lesbian and Gay History, Universidade de Toronto, Canadá (1985)
16. Mot, L. t – “Fontes inquisitoriais para o estudo da demografia histórica do Brasil.” Revista da Associação Paranaense de História, dezembro 1985, p. 239-250
17. Sendo esta pesquisa pioneira no estudo dos crimes sexuais perseguidos pelo Santo Ofício português, e considerando que as fontes inquisitoriais ainda não foram sequer completamente arroladas e depuradas, restando documentos a serem catalogados, somos quem primeiro chama a atenção para a provisoriedade destas estimativas, sujeitas, portanto a futuras revisões.
18. Para uma visão impressionista das aventuras e desventuras de alguns sodomitas em Lisboa no século XVII, cf. “Lisbon”, in David Higgs (ed), Queer Sites: Gay Urban Histories Since 1600, London, Routledge, 1999.
19. O Mosteiro dos Jerônimos, iniciado em 1501, é habitualmente apontado como a “jóia” do estilo manuelino. Este estilo exclusivamente português, integra elementos arquitetônicos do gótico final e do renascimento, associando-lhe uma simbologia régia, cristológica e naturalista, que o torna único e o fez merecedor do título de patrimônio da humanidade. Para ocupar o Mosteiro, D. Manuel escolheu os monges da Ordem de São Jerônimo, que teriam como funções, entre outras, rezar diária e perpetuamente pela alma dos reis e prestar assistência espiritual aos mareantes e navegadores que da praia do Restelo partiam para o ultramar. Durante quatro séculos essa comunidade religiosa habitou nestes espaços, sendo dissolvida em 1833. O edifício exibe uma extensa fachada de mais de trezentos metros, sendo construído em calcário de lioz que se tirava muito próximo do local de implantação. Desde sempre intimamente ligado à casa Real Portuguesa, o Mosteiro dos Jerônimos, pela força da Ordem e suas ligações com a Espanha, pela produção intelectual dos seus monges, pelo fato de estar inevitavelmente ligado à epopéia dos Descobrimentos e, inclusivamente, pela sua localização geográfica, à entrada do porto de Lisboa, é desde cedo considerado como um dos principais símbolos arquitetônicos da nação portuguesa. Sobre este monastério, consulte-se: Alves, José Felicidades: O Mosteiro dos Jerônimos. Lisboa, Livros Horizonte – 1o volume: “Descrição e Evocação” (1989); 2o volume: “Das origens à atualidade” (1991); 3o volume: “Para um inventário do recheio do Mosteiro de Santa Maria de Belém” (1993); Bettencourt, Frei Antônio: Compêndio Histórico-Crítico da origem e continuação do Instituto Bethlemitico Jeronimiano”, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Manuscritos da Livraria, n.1979; Jesus, Frei Diogo: De Monasterii S.Hieroymi pro Regno Portugalliae. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Manuscritos da Livraria, n.2560; Santos, Cândido: Os Jerônimos em Portugal: das origens aos fins do século XVII. Porto, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980; Varhagen, F. A. Notícia Histórica e Descritiva do Mosteiro de Belém. Lisboa, Tipografia da Sociedade Protetora dos Conhecimentos Úteis, 1842; Santos, Cândido Dias. Os Monges de São Jerônimo em Portugal na época do Renascimento. Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, Bertrand, 1984.
20. Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal. Lisboa, Oficina de Manoel da Silva, 1640
21. A Ordem de São Jerônimo foi instituída em Portugal por iniciativa de monges da Espanha. Diz a tradição que foram “sete servos de Deus, Terceiros Franciscanos, discípulos de Tomás de Sena, religioso solitário da Terceira Ordem Seráfica, que enviados à Espanha, fundaram a Ordem de São Jerônimo. Fernando, que era o principal, no ano de 1370, estendeu seu instituto por muitos mosteiros. Professam a Regra de Santo Agostinho. Trazem túnica branca, escapulário e manto preto. No Mosteiro Escorial têm sepultura os Reis de Espanha. Frei Vasco Português no século XIV foi quem introduziu esta Ordem em Portugal. Era um dos sete fundadores de sua Ordem em Espanha, com a qual esteve inicialmente unida a Congregação em Portugal. Chamavam-se Eremitas e depois se fizeram declarar monges e tomaram cogula preta. Contam nove Mosteiros, com seu Geral, que usa hábitos prelatícios, e todos os Priores ou Abades fazem pontifical.” Cf. Breve Notícia das Ordens Religiosas, junta dos melhores autores e das letras apostólicas, por D.Joaquim de Azevedo, Cônego Regular, Abade Reservatário de Sedavim, Arcipreste, Comissário do Santo Ofício e Fidalgo Capelão da Casa Real. Lisboa, Oficina de Simão Thadeo Ferreira, 1740, p.169-170; Castro, Frei Manuel Bautista: Crônica do Máximo Doutor e Príncipe dos Patriarcas São Jerônimo no Reino de Portugal, (Século XVIII), Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Caderno n.729; Almeida, Fortunato: História da Igreja em Portugal. Coimbra, Imprensa Acadêmica, 1912, “A Ordem de São Jerônimo”, p.421 e ss.
22. “Capítulo: Assembléia geral periódica de religiosos, sob a presidência do superior hierárquico local ou regional, para tratar de assuntos internos da comunidade.”
23. “Corista: o religioso que se prepara para ser clérigo e desempenha a função de recitar em coro o ofício divino.”
24. Desde o século XVI funcionava em Coimbra o famoso Colégio de São Jerônimo, para onde eram selecionados e enviados os coristas e professos que deviam seguir carreira eclesiástica.
25. “Molície”, do latim mollitie, desde o século XIII referia-se a práticas sexuais solitárias ou recíprocas, sem chegar contudo à penetração. Na maioria das vezes “molicie” eqüivale a masturbação individual ou “ad invicem”, quando dois homens se masturbam reciprocamente até chegar ao orgasmo. Cf. Flandrin, J.L Le sexe et l’Occident. Paris, Seuil, 1981, p. 340
26. Na linguagem inquisitorial da época, “agente” e “paciente” equivalem hoje ao “ativo” e “passivo”, respectivamente, o que penetra e o que é penetrado.
27. Conforme antecipamos, de acordo com o casuísmo inquisitorial, registrado nos Regimentos do Santo Ofício, só era considerado crime do conhecimento da Inquisição a sodomia perfeita, isto é a penetração com ejaculação dentro do ânus. Para evitar a consumação do crime, os sodomitas inventaram o que hoje, em tempos de Aids, os gays chamam de “safer sex”, isto é, práticas sexuais mais seguras – que embora pecaminosas, não eram consideradas criminosas pelo Santo Ofício. Entre tais práticas homoeróticas são citadas na documentação inquisitorial a punheta (masturbação), coxeta (fricção peniana inter-femural), sodomia per os (felação), connatus ou sodomia imperfeita (penetração sem ejaculação) e molicie ad invicem, também referida como “fazer as sacanas” (masturbação recíproca). Observe-se, em sua confissão, o quanto Frei Mathias de Mattos insiste em descrever seus atos homoeróticos como simples molície, sem ter chegado jamais a consumar a sodomia perfeita. Cf. Mott, Luiz. “Pagode português: a subcultura gay em Portugal nos tempos inquisitoriais”, Ciência e Cultura, (SBPC), fevereiro l988, 40 (2), p.120-139
28. Escoro-me em John Boswell ao usar o termo “gay”neste ensaio: “The Provençal word gay was used in the thirteenth and fourteenth centuries in reference to courtly love and its literature and persist in Catalan-Provençal’s closet living relative – as a designation for the art of poesy (gai saber), for a lover (gaiol) and for an openly homosexual person.” Boswell, op.cit. 1980, p.43, n.6; Mott, L. op.cit. 1989, p. 120-139; Alvarez, Imanol. “Sobre la palabra ‘gay’, su origen y la conveniência de utilizarlo com ‘y ‘”, Gay Hotsa, Bilbao, n.54, 1996, p.19. No português encontramos os termos gaio, “alegre, jovial”, e gaiato, “rapaz travesso e vadio, indivíduo alegre, divertido, malicioso, brincalhão”. Gaifona e gaifonice, por sua vez, se aproximam do contemporrâneo “gay”, no sentido de “trejeito, gestos afetados, ademanes”, conduta gestual geramente atribuída aos homossexuais mais adamados, hodiernamente referidos como “desmunhecados”.
29. Lúlio, Raimundo. Livro do Amigo e do Amado. São Paulo, Edições Loyola, l989.
30. Machado, Diogo Barbosa, Biblioteca Lusitana, (1747), Lisboa, s/e, 1933
31. “Fanchono” e “fanchonice” eram termos utilizados popularmente em Portugal e Brasil, desde o século XVI, para identificar o homossexual que restringia seu homoerotismo à molície, reservando o termo somítigo, somítico ou sodomita, ao praticante da sodomia perfeita.
32. Estas cartas encontram-se “costuradas” no referido Caderno do Nefando nesta mesma ordem seqüencial, e posto não serem datadas, numerei-as de um a seis para facilitar sua editoração. Optei igualmente por sua transcrição diplomática afim de facilitar sua compreensão hodierna.
33. Esta declaração de Frei Francisco, “oculto com o silêncio o que é digno de tanto aplauso”, corrige o equívoco de Michel Foucault (A Vontade de Saber, RJ, Graal, 1980, p.43) e outros teóricos “construcionistas”, que transferem apenas para os meados do século XIX o surgimento da identidade homossexual. Já no século XVII encontramos em alguns processos dos sodomitas portugueses, um discurso laudatório do amor homoerótico, muito embora tímido e secreto, haja vista o perigo sempre presente da fogueira inquisitorial.A idéia da “incorrigibilidade” dos sodomitas por parte dos Inquisidores ratifica a percepção da homossexualidade como uma “marca indelével” e não como algo transitório. Cf. Mott, Luiz. “Pagode Português”, op.cit. 1989.
34. “Letras”: usado no texto como sinônimo de cartas, missivas. O autor faz trocadilho com a palavra “pena”, primeiro usada no sentido de dor, aflição, depois como pena (de pato) usada para escrever à tinta.
35. “Amorinhos” equivale ao contemporâneo “amorzinhos”. Segundo o Dicionário Morais “meus amorinhos” era expressão amorosa ainda corrente no século XVIII. Cf. Silva, Antonio Morais. Diccionário da língua Portuguesa. Lisboa, Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1789.
36. “Regra: cada uma das linhas de um papel pautado”
37. Frei Mathias de Mattos, na qualidade de Visitador da Ordem dos Jerônimos, devia ser obrigado a constantes viagens pelos diferentes mosteiros da congregação, daí, após o Capítulo realizado no Mosteiro de Belém, na quaresma de 1690 – ocasião em que conheceu Frei Francisco, ter-se ausentado da casa-mãe por três ou quatro meses, consoante informação do missivista.
38. São Roque, nos limites do Bairro Alto, era a principal igreja dos Jesuítas de Lisboa. Não há como saber se este “tio” do frade corista era religioso ou um leigo que trabalhava na dita igreja.
39. “Congro: Peixe teleósteo, ápode, da família dos congrídeos, comum no Mediterrâneo e Atlântico, que alimenta-se de outros peixes.” Certamente era como apelidavam a um outro frade, talvez cujas feições lembrassem ao dito peixe.
40. “Velhacaria: ação desonesta, lasciva; sensualidade.”
41. O Refeitório do Mosteiro dos Jerônimos foi construído entre 1517 e 1518 pelo mestre Leonardo Vaz e seus oficiais. De abóbada polinervada e abatida, exemplifica o gosto mais comum da época manuelina, com grossos cordões de pedra. Na parede oposta às janelas, existia um pequeno púlpito de madeira destinado à leitura da Sagrada Escritura e das Vidas dos Santos, durante as refeições. No topo norte há pintura de Avelar Rebelo (1640-45), representando S. Jerônimo, cardeal, num gabinete de trabalho e no topo sul, pintura mural com cena da Adoração dos Pastores. Cf. Peres, Damião & Cerdeira, Eleutério. História de Portugal. Barcelos, Portucalense Editora, 1937
42. “Fulano” refere-se ao próprio destinatário destas cartas, Frei Mathias de Mattos. A omissão do nome de seu amante tanto nesta passagem, como no cabeçário das cartas, assim como de seu próprio nome assinando as mesmas, explica-se pela cautela em manter anônimas e sigilosas tão comprometedoras epístolas.
43. Os hábitos dos irmãos leigos da Ordem de São Domingos e de São Jerônimo eram praticamente iguais: túnica branca e escapulário, capa e capuz pretos.
44. O Coro destinava-se às atividades fundamentais dos monges da Ordem de São Jerônimo – orações, cânticos e ofícios religiosos. Devido à imposição da regra de Santo Agostinho, os monges deviam permanecer neste local 7 horas diárias. O cadeiral tem o desenho de Diogo de Torralva e foi executado por Diogo de Sarça em 1548-1550. O varandim atual sofreu uma derrocada com o terramoto de 1755, tendo sido reconstruído em 1883. Cf. Peres, Damião & Cerdeira, Eleutério. História de Portugal. Barcelos, Portucalense Editora, 1937
45. Esta expressão “dar dois açoites” tanto pode ser entendida no sentido literal – significando que de fato, os dois monges eram adeptos de práticas hoje chamadas de sado-masoquismo, usando talvez as próprias disciplinas (pequeno chicote utilizado como instrumento de penitência na auto-flagelação) para excitar-se mutuamente, ou então, os “dois açoites” seria um eufemismo para descrever duas cópulas. Hoje em dia, na Bahia, “dar o chicote” é sinônimo de cópula anal passiva. Na terceira carta Frei Francisco refere-se novamente a “pancadinhas” que Frei Mathias lhe dava, cujo efeito era “apagar e aliviar” sua paixão. “Pancada de amor não dói”… diz o ditado popular.
46. O fato de Frei Francisco “rezar a Deus” implorando para que seu amado lhe escrevesse, sugere que o corista vivia em paz com sua consciência, sem considerar que seu amor-proibido fosse moralmente condenável, caso contrário, não envolveria Deus no que as pessoas consideravam “velhacarias”.
47. “Timbre: insígnia apensa exteriormente ao escudo para designar a nobreza do proprietário, figurativamente, pode significar: honra, capricho, orgulho.”
48. Ao referir-se pejorativamente aos “mestiços”, o missivista reflete o preconceito racial institucionalizado na sociedade luso-brasileira da época, que conferia apenas aos Cristãos-Velhos (brancos puros de antigas cepas lusitanas) a condição plena da cidadania, relegando as demais raças e suas misturas à condição infecta de “sangue impuro”.
49. “Potências da alma são: o entendimento, a vontade e a memória”. Dicionário Morais.
50. “Maganete: diminutivo de magano: homem vil, lascivo, impudico, esperto, malicioso, folgazão, de baixa extração.” Não há como identificar quem era este “maganete” desafeto destes amantes.
51. Faz parte da tradição oral da subcultura gay luso-brasileira, documentada quando menos desde o século XVII, a utilização jocosa do feminino para referir-se a outros homossexuais: “a Ministra” obviamente refere-se ao “Ministro”, posto ser rigorosamente vedada a entrada de mulheres no interior dos mosteiros masculinos. Cf. Mott, Luiz. Pagode Português, op.cit.
52. A Sala do Capítulo tem esta denominação por servir às reuniões periódicas dos monges, que tinham o seu início com a leitura de um capítulo da Regra. Nestas reuniões, discutia-se a eleição dos priores, a recepção dos noviços e procedia-se à confissão pública das faltas. Originalmente pensada para este efeito, a atual sala nunca foi utilizada para este fim pois só foi abobadada no Séc. XIX. Apenas a porta ficou concluída nos anos de 1517-1518, tendo sido executada por Rodrigo de Pontezilha. Na sua decoração ressalta duas imagens de vulto que representam S. Bernardo e S. Jerônimo. Cf. Peres, Damião & Cerdeira, Eleutério. História de Portugal. Barcelos, Portucalense Editora, 1937
53. “Mansozinho” no original.
54. Ao longo destas seis cartas, Frei Francisco da Ilha da Madeira, utiliza por 44 vezes, os termos coração e coraçãozinho. É-lhe igualmente muito cara a imagem do coração como sede e nicho do amor, de sua paixão e ternura. Várias de suas imagens são idênticas às utilizadas pela principal visionária do Coração de Jesus, Santa Margarida Maria Alacoque – falecida em 1690, no mesmo ano em que estas cartas foram escritas, notadamente a metáfora da troca dos corações entre as pessoas amadas e o coração abrasado em chamas pela paixão de quem se ama. Note-se que é somente a partir do século XVII que tem início o culto cordícola, posto que até a Idade Média, considerava-se fígado, e não o coração, a sede das paixões. Cf. S.Margherita M. Alacoque, Autobiografia. Roma, Apostolato della Preghiera, 1983.
55. “Prendas: donativo de alguma coisa em sinal e penhor de amor.” Dicionário Morais. Talvez Frei Francisco se referisse às cartas e alguns presentes que Frei Mathias lhe havia dado, e que a contragosto, agora devolvia.
56. É justa a apreciação que Frei Francisco faz das qualidades intelectuais de seu amado Frei Mathias, particularmente quanto a ser excelente pregador, cargo que ocupou por anos seguidos na Capela Real. Quanto a seus valores éticos, desgraçadamente, o jovem corista se enganara redondamente, pois ao ter suas cartas entregues à Inquisição, (gesto desnecessário, bastando que o acusante tão somente tivesse delatado seu romance e declarado que havia destruído as cartas recebidas), Frei Mathias agiu exatamente ao contrário do que queria crer seu amante: não foi ” homem de palavra”, mas sim “traidor”.
57. Provavelmente Frei Francisco expressa aqui o medo de vir a ser condenado à morte na fogueira caso o Tribunal do Santo Ofício viesse a prende-lo e seu amante pelo crime de sodomia. Na década de 1690. Foram presos e processados pela Inquisição 15 sodomitas.
58. “Casa dos foles”: onde se concentravam as máquinas de produzir ar para os tubos do órgão do coro.
59. Destinado essencialmente ao isolamento da comunidade monástica, o claustro era um local aprazível e sereno que permitia a oração, a meditação e recreio dos monges da Ordem de S. Jerônimo. Projetado por Diogo de Boitaca que iniciou os trabalhos no começo do século XVI, foi continuado por João de Castilho a partir de 1517 e concluído por Diogo de Torralva entre 1540 e 1541. De duplo piso abobadado e planta quadrangular, apresenta na sua decoração a originalidade deste estilo ao conjugar símbolos religiosos (elementos da Paixão de Cristo, entre outros), régios (cruz da Ordem Militar de Cristo, esfera armilar, escudo régio) e elementos naturalistas, como cordas e motivos vegetais que coabitam com um imaginário, ainda medieval, de animais fantásticos. Cf. Alves, José Felicidades: O Mosteiro dos Jerônimos. Lisboa, Livros Horizonte – 1o volume: “Descrição e Evocação” (1989); 2o volume: “Das origens à atualidade” (1991); 3o volume: “Para um inventário do recheio do Mosteiro de Santa Maria de Belém” (1993).
60. O Jantar , na tradição luso-brasileira, era “a segunda das três comidas regulares do dia, entre o almoço e a ceia, ou antes da merenda.” Dicionário Morais.
61. As lamparinas eram nesta época mantidas com azeite, notadamente de oliva.
62. Matinas: a primeira das horas canônicas, rezada ou cantada no coro por toda a comunidade, de madrugada.
63. É a única vez que Frei Mathias de Mattos é tratado com o epíteto de “Trindade”.
64. A presença da homossexualidade no Mosteiro dos Jerônimos está amplamente registrada na documentação da Inquisição de Lisboa – especialmente na década que antecede à redação destas cartas. Consta nos Arquivos do Santo Ofício que só em 1682, Manoel da Costa, 21 anos, “que serviu de sacristão no Mosteiro de Belém”, manteve repetidas relações homoeróticas com dez religiosos, a saber: Frei Agostinho de Monte Sion, Frei Pedro Encarnação, Frei Francisco de São Jerônimo, Frei Gaspar dos Reis, Frei Vicente de Alamares, Frei Tomás de Barros, Frei Antônio de Belém, Frei Antônio de Campos, Frei Constantino, Frei Manoel Magalhães, também praticando fanchonices um outro sacristão e o boticário do mesmo convento. (Cf.
65. ANTT, Inquisição Lisboa, Processo nº 6118). O Procurador deste Mosteiro, o citado Frei Agostinho de Monte Sion, em 1681 declarou perante a Mesa Inquisitorial as circunstâncias e os nomes de 62 rapazes, com idades entre 14 e 25 anos, com os quais manteve, individualmente, de uma a 50 cópulas sodomíticas. (Cf. ANTT, Inquisição de Lisboa, Caderno do Nefando n.13, fl.62) . Apesar de tanta lubricidade, não foram os Jerônimos mas sim os Franciscanos os campeões da sodomia tanto em Portugal quanto no Brasil. Cf. Mott, L. “Pagode Português”, op.cit.
66. Damiani, Pietro: Book of Gomorrah. An Eleventh-Century Treatise against Clerical Homosexual Practices. Wilfrid Laurier University Press, Walterloo, Canada (1982); Frei Manuel do Monte Olivetti: Practica regular y modo de proceder en las visitactiones de los religiosos franciscanos. Oficina L. Crasbeech, Lisboa, 1735
67. Matos, Gregório. Obras Completas. Salvador, Editora Janaína, vol.V, poema “Definição do Amor”, p.1229.
68. Pessoa, Fernando. Obras Completas: Poesias inéditas, 1930-1935. Lisboa, Edições Ática, 1981, vol. 7, p. 192.

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